terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O HOMEM NO ESPELHO



Há certas coisas que nos parecem inexplicáveis. Por que as pessoas se iludem tanto com o poder? É possível que nossa falta de compreensão com respeito a este assunto se deva ao fato de sermos reles mortais, destituídos da aura que parece circundar os rostos daqueles que se acham embevecidos pelo poder de que dispõem de modo efêmero... Sim, efêmero! Por mais que nos pareça vitalício, todo poder é efêmero. Os grandes Faraós, os Césares, imperadores como Alexandre Magno, Luis XV, Napoleão Bonaparte, ou ditadores como Hitler, Ceaucescu, Saddam Hussein ou Fidel Castro... Todos se acharam semideuses, indestrutíveis, eternos e senhores da história, mas, são agora apenas história.

Como escreveu o jornalista Paulo Saab, no Diário do Comércio de 23 de abril de 2008: “Sofre quem recebeu as graças do prestígio de um cargo importante ao deixá-lo se não entender que o poder é efêmero, e tudo que gira em torno dele é o mero interesse”.

Você já se perguntou como o receberiam em sua empresa ou organização se você ali voltasse depois de não ter mais poder sobre os outros? A maior parte daqueles que detêm o poder, mas, se esquecem de ver o ser humano por trás daqueles que o servem e obedecem, são pessoas solitárias.

Paulo Saab ainda diz, em seu curto e excelente artigo que: “os governantes, nomeados, impostos ou eleitos, sentados nos cargos importantes, cercaram-se de pompa, circunstância e muitos, muitos, muitos amigos e admiradores. Sem falar nas demais autoridades que gravitam em torno de si mesmas e de quem mais está no poder. O poder deslumbra. Fascina. Faz quem o detém flutuar alguns centímetros (ou metros) acima do chão e, geralmente, acima também do bom senso”.

Tenho pena destas pessoas, porque elas não terão como fugir de si mesmas. Terão que mirar seu rosto destituído dos efeitos cosméticos do poder, ressentidos pela solidão, sem amigos, porque os que deles se acercaram quando estavam no poder, não eram amigos, eram interesseiros ávidos das benesses do poder. Estes, agora tentam saciar sua sede de favores na fonte provida por outro incauto que se julga um semideus, ou sorvem também, sua dose no cálice do triste ocaso de um tempo que passou.

Eu penso nestas pessoas e como elas se miram no espelho da vida, quando não há ninguém por perto e tão somente lhes assedia a solidão e o vazio existencial.

Homens de poder, em qualquer esfera de ação, em qualquer intensidade, em qualquer jurisdição. Lembrem-se de que a Palavra de Deus diz: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te." Apocalipse 3:19

Dedico esta excelente meditação de Dale Wimbrow* como reflexão para aqueles que detêm alguma forma de poder.

O HOMEM NO ESPELHO

Quando conseguir tudo o que quer na luta pela vida, e o mundo fizer de você rei por um dia, procure um espelho, olhe para si mesmo e ouça o que AQUELE homem tem a dizer.

Porque não será de seu pai, mãe ou mulher o julgamento que terá que absolvê-lo. O veredicto mais importante em sua vida será o do homem que o olha do espelho.

Alguns podem julgá-lo um modelo, considerá-lo um ser maravilhoso, mas ele dirá que você é apenas um impostor, se não puder fitá-lo dentro dos olhos.

É a ele que deve agradar, pouco importam os demais, pois será ele quem ficará ao seu lado até o fim.

E você terá superado os testes mais perigosos e difíceis se o homem no espelho puder chamá-lo de amigo.

Na estrada da vida, você pode enganar o mundo inteiro e receber palmadinhas no ombro ao longo do caminho, mas, seu último salário será de dores e lágrimas, se enganou o homem que o fita do espelho.

*Blanchard, Kenneth. Peale, Norman Vincent. O Poder da Administração Ética. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Record, 1988.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A CADA UM A SUA OBRA



Li, certa feita, sobre o “concílio das ferramentas”. Uma fábula que certamente traz muitas lições àqueles que servimos na obra de Deus, através de nossos talentos diversos. Eis a fábula:

O Concílio das Ferramentas

Era uma vez uma carpintaria onde as ferramentas resolveram realizar uma assembléia. Elas tinham umas diferenças e queriam por tudo em pratos limpos.


O martelo assumiu a presidência, entretanto, ele foi notificado que teria que renunciar porque batia com muita força e fazia muito barulho. Por sua vez o martelo pediu que fosse expulso daquela assembléia o parafuso, porque ele tinha que dar muitas voltas para que servisse para alguma coisa.


O parafuso acatou a decisão, mas exigiu que a lixa também saísse, porque, segundo ele, a lixa era muito áspera e sempre causava muitos atritos.Mas a condição para a lixa sair era que também fosse expulso o metro, que ficava medindo todo mundo como se só ele fosse perfeito!

Nisso chegou o carpinteiro e utilizando o martelo, o metro, a lixa e o parafuso, finalmente transformou a madeira num lindo móvel. Quando a carpintaria ficou completamente só, a assembléia recomeçou.


Foi então que o serrote pediu a palavra: " Senhoras e senhores", disse ele. Parece que ficou demonstrado que todos nós temos defeitos, entretanto o carpinteiro, quando trabalha, utiliza as nossas qualidades. E é isso que nos faz valiosos. Assim, temos que deixar de lado os nossos pontos negativos e nos concentrar nos nossos pontos positivos.


A assembléia então concluiu que o martelo era forte, que o parafuso unia e dava força, que a lixa aparava as arestas e o metro era preciso e exato. Sentiram-se então uma equipe capaz! E todos ficaram felizes.O mesmo acontece conosco, seres humanos. Observe! É fácil encontrar os defeitos nos outros. Qualquer um pode fazê-lo! Mas encontrar as qualidades é tarefa para espíritos superiores que são capazes de inspirar todos os êxitos humanos.

Lembremo-nos portanto que, por mais defeitos que tenhamos, somos ferramentas que, nas mãos do mestre constroem beleza e conforto para os seres humanos.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

ATÉ BREVE AMIGO...

Augustinho Câmara- ladeado por mim e por sua esposa Eva.

“Esquecer-se da morte e dos mortos é prestar um péssimo serviço à vida e aos vivos.” Philippe Ariès (historiador francês 1914-1984).

Hoje, escrevo neste blog com o coração cheio de tristeza. Perdi um amigo, e como amigos são poucos, perdi muito...

O ser humano jamais se acostuma com a idéia da morte porque afinal, fomos criados para viver eternamente. O pecado trouxe ao mundo a triste realidade da morte, e, mais dia, menos dia, chega a vez de todos nós lidarmos com ela.

Até podemos aceitar com relutância a terrível existência do fim de nossos dias e de nossos queridos, mas, parece ser menos sufocante se aquele que se vai deste mundo esteve adoentado por algum tempo, como que a dar-nos a oportunidade de sentir menos o impacto de sua partida. Se em trágico acidente, consola-nos o fato de que fatalidades são fatalidades e nada se pode fazer, mas, o partir de alguém que hoje fala conosco e amanhã já não está mais aqui, que parecia estar saudável, mas, era consumido por algum mal do qual não teve como defender-se, então, parece-nos mais absurda sua morte.

Curiosamente escrevi este pequeno poema na noite da última segunda-feira porque minha filha havia me pedido uma frase sobre a morte para dedicar a alguém que morrera precocemente vítima de câncer. Ela acabou não usando as idéias que eu lhe dei, entre elas, o poema abaixo que, dedico ao meu amigo Augustinho Câmara, em homenagem póstuma. Vou sentir muita saudade, mas, até breve amigo, nos reveremos na manhã da ressurreição. Esta é uma homenagem ao seu caráter e nobre coração.

DIGNO VIVER, DIGNO MORRER...

A vida dos que vivem sem pensar na morte
Que correm, trabalham e sonham altivos
E se acham isentos desta triste sorte
Destino atroz dos que estão vivos

É uma estrada que leva ao incerto
Uma ilusão que permeia a lida
Um regar inútil deste imenso deserto
Não é vida sem morte, antes é morte sem vida!

Se tu queres no seu tempo o “digno morrer”
Se doces lembranças tu queres deixar
Não deixes vazia a vida correr.
Pratica sem demora, o “digno viver”!


quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Bill Jr.


Há pessoas que gostam de piadas, outras de fofocas, outras ainda, de amenidades. Não digo que estas coisas no seu devido tempo e lugar deixem de ser “interessantes”, todavia, no que me diz respeito, sou um admirador do pensamento humano. Deleito-me nas verdades sintetizadas em frases, nas quais, grandes personalidades da história nos agraciaram com admiráveis gemas de seu pensamento.

Admiro estadistas como Abraham Lincoln, Winston Churchill, Gandhi e outros. Gosto das máximas do Marquês de Maricá, Charles Chaplin, um sem fim de filósofos e escritores, além dos provérbios populares, especialmente dos chineses.Às vezes me ponho a analisar as verdades contidas no jeito e trejeito (sem sentido dúbio) dos causos que são de domínio público.

Ouvi do jornalista Acir Antão da Rádio Itatiaia (BH) uma curiosa explicação sobre o costume nordestino de apelidar os homens que se chamam Severino por Bill. Ele dava esta explicação porque brincava com as trapalhadas do então presidente da Câmara dos Deputados Severino Cavalcanti, um deslumbrado membro do chamado baixo-clero do Congresso que chegou acidentalmente à presidência daquela Casa Legislativa por um erro de cálculo das forças partidárias que disputavam tal cargo.

Certa feita, um amigo me falou a respeito de um chefe que se chamava Severino. Vamos chamá-lo de Bill. Era um mulato nordestino, pretensioso, político sagaz, arrogante e um pouco implacável com seus subordinados. O tempo cuidou de mostrar quem ele realmente era e mais tarde ele deixou aquela empresa, de onde saiu deixando uma péssima imagem e sobre a qual moveu um processo trabalhista indevidamente.

Algum tempo depois começou a trabalhar naquela empresa um jovem muito parecido com o Severino (ou Bill, como lhe chamamos nesta história). Embora não fosse nordestino e nem tivesse o mesmo nome, esse jovem lembrava bastante o Bill: mulato, mesma forma de pentear os cabelos e de colocar a calça bem acima da cintura, pretensioso e arrogante, o Bill demonstrou sua habilidade política com a indicação para um cargo de chefia na empresa. Posto isto, os funcionários daquela empresa demonstraram sua indignação para com aquele sujeito que do dia para a noite deixou para trás muitos colegas que tinham qualificação e habilidades para tal cargo. Tudo porque o Bill Júnior se articulou politicamente para chegar lá. E meu amigo suspirou dizendo: o mundo está cheio de Bill´s... Meu Deus, até quando?

É verdade que os Bill’s realmente permeiam as empresas, instituições, agremiações e até mesmo as igrejas. Algumas vezes o tempo se encarrega de mostrar o verdadeiro caráter destes destituindo-as de posições que alcançaram sem honra e sem mérito, outras, os homens de bem se encarregam de fazer oposição àqueles que mediocremente assomam o poder e a liderança. Cada homem de bem que perde a capacidade de se indignar colabora com um mundo onde impera a manipulação e a injustiça.

Termino esta crônica citando dois homens de bem de quem a história faz justiça, porque ainda que no silêncio do aparente reconhecimento e obediência as pessoas de bem não se insurjam bélica e revoltosamente contra os Bill´s, “a civilização deve o máximo aos homens e mulheres, conhecidos e desconhecidos, cujas mentes livres e inquiridoras e os cérebros inquietos não puderam ser subjugados pela tirania”, disse Franklin Delano Roosevelt, no que concorda Martin Luther King quando afirma: “Quem aceita o mal sem protestar, coopera realmente com ele.”

domingo, 25 de janeiro de 2009

UZ & EL


Havia um homem na terra de UZ, cujo nome era Jó. Era homem íntegro e reto, que temia a Deus (EL) e se desviava do mal. Jó 1:1

A terra de Uz, onde, segundo a Bíblia Jó habitava, tornou-se repentinamente o palco de uma série de acontecimentos inexplicáveis. Um mensageiro após outro lhe dava uma notícia desesperadora. Deste modo abrupto, Jó perdera aquilo e aqueles que lhe eram mais preciosos. Restaram-lhe apenas a mulher maldizente, a lepra humilhante e pseudo-amigos impertinentes, que não lhe traziam conforto senão repreensões e críticas.

Que lições podem ser apreendidas de um relato catastrófico de tal dimensão? Porventura Deus permite que Seus filhos sejam massacrados tão somente para comprovar a fidelidade destes?

Não posso aceitar a idéia de um Deus que joga com a vida e o sentimento das pessoas numa espécie de jogo macabro com satanás. Por este motivo, sempre que as decepções da vida se estampam diante de mim e de meus irmãos em Cristo, volto-me para o texto sagrado para encontrar uma explicação lógica e ao mesmo tempo aceitável da maneira como Deus conduz Sua vontade entre as decepções da vida, com o propósito de não nos deixar esquecer que Ele tem para conosco “pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais” (Jer. 29:11)

Interpõem-se assim, duas pequenas palavras: UZ e EL.

UZ representa uma terra cheia de bênçãos e EL é a bênção, porque o sufixo EL significa Deus.

Mas UZ também representa um povo preocupado com festas e bens materiais: "Iam seus filhos à casa uns dos outros e faziam banquetes cada um por sua vez; e mandavam convidar as suas três irmãs para comerem e beberem com eles". Jó 1:4.
Enquanto EL é representado no homem que busca a Deus, no caso, Jó: "E sucedia que, tendo decorrido o turno de dias de seus banquetes, enviava Jó e os santificava; e, levantando-se de madrugada, oferecia holocaustos segundo o número de todos eles; pois dizia Jó: Talvez meus filhos tenham pecado, e blasfemado de Deus no seu coração. Assim o fazia Jó continuamente". Jó 1:5.

UZ representa a terra dos acusadores (que se dizem amigos, mas, não o são) enquanto EL representa o verdadeiro conforto nos momentos difíceis que a vida nos apresenta. Tal conforto só pode vir diretamente de Deus ou através de Seus verdadeiros servos.


Como reagiremos diante de UZ e EL uma vez que UZ e EL representam uma incompatibilidade gritante?

A história de Jó deixa patente diante de nós que é necessário suportar o embate entre UZ e EL para que finalmente a justiça de Deus se faça sobre aqueles que verdadeiramente se permitem guiar pelo Senhor da história. O mais curioso é a providência de Deus que acena com suas promessas até mesmo na triste história da oposição entre UZ e EL. Ao final dela, o justo Jó foi recompensado com mais posses do que antes possuía e de outros filhos que possivelmente lhe trouxeram verdadeira alegria ao coração. E tudo isto se deu enquanto ele orava pelos seus “amigos” (Jó 42:10) que por sua feita precisaram se arrepender do mal que fizeram a Jó e da intercessão dele dependeram para receber o perdão de Deus (Jó 42:7, 8). E o Senhor de misericórdia ainda reserva para nós uma surpresa no significado do nome que associa as duas palavras UZ e EL: O nome UZIEL significa Deus auxiliou sendo uma variação do nome Eleazar que significa Deus ajuda ou auxilia.

Temos no significado deste nome a certeza de que Deus nos auxiliará em meio às decepções da vida, as aparentes derrotas e da corrupção do meio onde vivemos ou trabalhamos, porque afinal de contas, a Palavra do Senhor nos diz: "Não vos enganeis, de Deus não se zomba, pois tudo o que o homem semear, isto também ceifará". (Gálatas 6.7).

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

OBA OBA OBAMA


No último dia 20 de janeiro as atenções da mídia e de milhões de pessoas ao redor do mundo se concentraram na cerimônia de posse do quadragésimo terceiro presidente dos Estados Unidos da América: Barack Hussein Obama.*

Filho de mãe americana e pai queniano, este mestiço ou mulato, com apenas 47 anos se torna um dos presidentes mais novos dos EUA, cuja carreira política foi meteórica em termos de tempo, tempo que, certamente dirá se tal carreira será grandiosa ou pífia.

Uma espécie de mistura entre Abraham Lincoln, John F. Kennedy, George Washington e Martin Luther King, Obama tem diante de si uma tarefa difícil: atenuar a crise financeira em que está mergulhado o país e o mundo além de garantir a segurança dos americanos diante do terrorismo. Só estes dois desafios já são suficientes para embranquecer seus cabelos ainda negros e vincar sua face de rugas características do ônus das difíceis decisões. A nós brasileiros patenteia-se o exemplo de Luís Inácio Lula da Silva, cujos cabelos e barba ainda permeados de negror, foram tomados da brancura que associada às marcas de expressão demonstram o custo que se paga para ocupar tal posição.

Li, certa vez, uma reportagem no Estado de Minas, sobre a última entrevista de que se tem notícia, concedida pelo ex-governador de Minas Gerais, Hélio Garcia em sua fazenda no sul de Minas, na qual se recolheu numa espécie de refúgio das lides políticas, das quais declarou não sentir saudades. Garcia afirmou que o maior problema para o homem do poder são as decisões, classificadas por ele de “solitárias”. Na hora de decidir encarar o ônus das decisões, o homem do poder está sozinho. Não há como compartilhar tais decisões, nem o preço de seus resultados que sempre serão negativos para alguém.

Tomada de decisões é algo que se espera de um líder. Obama começou seu governo com o anúncio de algumas decisões. Outras virão e com elas o preço a ser cobrado da imagem do homem hoje considerado o “salvador da pátria” americana. Mas ele tem em quem se espelhar. Basta-lhe olhar para a história de grandes homens que o antecederam desde Washington, passando por Lincoln até Clinton, este último mesmo tendo se envolvido em escândalos sexuais foi o presidente que mais contribuiu para a paz no oriente médio. O Bush? Só merece as sapatadas que marcaram seu triste ocaso.

Espero que Barack Obama se inspire em uma declaração do 25º Presidente americano Theodore Roosevelt: “É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se a derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que nem gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota”.

* (44º mandato e 43º presidente levando-se em conta que Stephen Grover Cleveland foi o único a ser eleito para dois mandatos não-consecutivos: 1885-1889 1893-1897).

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Pasárgada de Bandeira X bandeira de Pasárgada

“Vou-me embora para pasárgada”.

Este poema de Manoel Bandeira[1] tem se tornado numa espécie de chavão do senso comum, em referência ao desejo do ser humano que, inconformado com os padrões do mundo em que vive, manifesta o desejo de uma transformação abrupta como, por exemplo, mudar-se para lugares totalmente diferentes de sua desgastante rotina. Pasárgada[2] soa como refúgio fictício e mitológico, no qual cidadãos estariam livres de obrigações impostas, de políticos desonestos, de ladrões e criminosos e onde se poderiam viver certas extravagâncias e busca de prazeres sexuais de forma irresponsável. E tudo isso por um único motivo: o de ser lá, amigo do rei!

Por que o poder seduz tanto o ser humano? O poder de mandar e desmandar, de prender ou libertar, de proporcionar prazer ou infligir o sofrer, de matar ou deixar viver... Por quê?

Para entender melhor este assunto é importante a leitura de um artigo do professor Raymundo de Lima, da UEM, que, para que justiça seja feita, tomei a liberdade de transcrever na íntegra. Ei-lo:

O poder muda a pessoa

O poder torna as pessoas estúpidas, e, muito poder, torna-as estupidíssimas. (R. Kurz)
O psicanalista J. Lacan [1] observou que a partir do momento em que alguém se vê "rei", ele muda sua personalidade. Um cidadão qualquer quando sobe ao poder [2], altera seu psiquismo. Seu olhar sobre os outros será diferente; admita ou não ele olhará "de cima" os seus "governados", os "comandados", os "coordenados", enfim, os demais.

Estar no poder, diz Lacan, "dá um sentido interiormente diferente às suas paixões, aos seus desígnios, à sua estupidez mesmo". Pelo simples fato de agora ser "rei", tudo deverá girar em função do que representa a realeza. Também os "comandados" são levados pelas circunstâncias a vê-lo como o "rei do pedaço".

La Boétie [3] parecia indignado em perceber o quanto o lugar simbólico de poder faz o populacho se oferecer a certa "servidão voluntária". Bourdieu chama-nos atenção para a força que o símbolo exerce sobre os indivíduos e grupos. Antes de ocupá-lo, o poder atrai e fascina; depois de ocupado tende a colar a alguns como se lhes fossem eterno. Aí está a diferença entre um Fidel Castro e um Nelson Mandela. O primeiro e a maioria dos ditadores pretendem se eternizar no poder, o segundo, mais sábio, toma-o como transitório, evitando ser possuído pelo próprio. ("Possuído", sim, pois o poder tem algo de diabólico, que tenta, que corrompe, etc).

Uma vez no poder, o sujeito precisará de personas (máscaras) e molduras de sobrevivência. A persona serve para enganar a si e aos outros. A moldura é algo necessário para delimitar simbolicamente a ação dele enquanto representante do poder. A ausência de moldura ou o seu mau uso fará irromper a força pulsional do sujeito que anseia por mais e mais poder, podendo vir a se tornar uma patologia psíquica. A história coleciona exemplos: Hitler, Stalin, Mobutu, Collor de Melo, Pol Pot, Idi Amim, etc.

No filme As loucuras do rei George III [4] da Inglaterra, somos levados a perceber duas coisas: o quanto que as pessoas recusavam a idéia de um rei que perdeu a razão em função de uma doença e, que fazer para impedir alguém que representa o poder máximo de uma nação, devido a suas loucuras?

O poder faz fronteira com a loucura. Não é sem motivo que muitos loucos se julgam Napoleão ou o Rei Luis XV. Parece que há algo de "loucura narcísica" nas pessoas que anseiam chegar ao poder político (governante de uma cidade, estado ou país, ministro, membro do secretariado local), ou ao poder de uma instituição, empresa, departamento, pequeno setor de uma organização qualquer ou grupo qualquer. O narcisismo de quem ocupa o poder, revela-se na auto-admiração (o amor a si e aos seus feitos), na recusa em aceitar o que vem dos outros e no gozo que ele extrai do poder, que, levado ao extremo poderia revelar loucura. R. Kurz, é direto ao declarar que "o poder torna as pessoas estúpidas, e, muito poder, torna-as estupidíssimas".

O sociólogo M. Tragtenberg certa vez observou como muitos intelectuais discursam uma preocupação pelo "social", mas estão mesmo preocupados com a sua "razão do poder". Há uma espécie de "gozo louco" pelo poder, que faz subir a cabeça dos que estão jogando para ganhá-lo um dia.

Do ponto de vista psicológico, observa-se que o poder faz o ocupante perder a própria identidade pessoal e assumir outra, contornada pela "fôrma" do próprio poder. Os cargos executivos (presidente, governador, prefeito, diretor, reitor, etc), têm uma fôrma própria, um lugar que marca certa diferença em quem a ocupa em relação aos cargos de segundo escalão (ministros, secretários disso e daquilo, chefes de gabinetes, assessores, etc). As “pequenas autoridades" dos escalões inferiores - mas com algum poder - costumam ter atitudes mais protofascistas que as grandes. São mais propensas a "vender sua alma ao diabo" que as grandes para estar no poder.

O psicólogo Ricardo Vieira, da UERJ, de quem me inspirei para continuar seu artigo, levanta os quatro primeiros indicadores de mudanças que ocorrem com as pessoas que chegam ao poder:

1) no modo de vestir: o terno, a gravata, o blazer e o tailleur que, antes eram utilizados em circunstâncias especiais, passam a ser usados cotidianamente, mesmo quando não é necessário utilizá-los. Alguns demonstram certo constrangimento em trocar a surrada camiseta e passar a usar um blazer ou uma camisa de linho, pelo menos nas ocasiões especiais. Se antes usava um cabelo comprido, despenteado, logo é orientado a cortá-lo, penteá-lo, dar um trato. Na última eleição para prefeito de Maringá, um candidato foi orientado pelo seu marketeiro para mudar o cabelo enrolado por um penteado de brilhantina. Perdeu a eleição.

2) mudam as relações pessoais: os antigos companheiros poderão ser substituídos por novos, que o leva a sentir-se menos ameaçado. O sentimento persecutório de "ser mal visto", precisa ser evitado a qualquer preço por quem ocupa o poder.

3) altera o tratamento com o outro, que se torna autoritário com seus subordinados; gritos e ameaças passam a ser seu estilo. Certa vez, perguntaram a Maquiavel se era melhor ser amado que temido? O autor de O príncipe respondeu que "os dois, mas, se houver necessidade de escolha, é melhor ser temido do que amado".

4) mudam os antigos apoios e alianças. Aqueles que o apoiaram chegar ao poder, se transformam em arquivos vivos dos seus defeitos. O poder leva a desidentificação com os antigos colegas de profissão. É o caso do presidente FHC e do seu Ministro da Educação Paulo Renato Souza, depois de executivos, ambos não se vêem mais professores.

5) Resistência em fazer autocrítica. Antes, vivia criticando tudo que era governo ou tudo que constituía como efeito de governo. Mas, logo que passa a ocupar o poder, revela "sua outra face", não suportando a mínima crítica. O poder os torna cegos e surdos a crítica. Uma pesquisa de Pedro Demo, da Universidade de Brasília, constata que os profissionais de academias apreciam criticar a tudo e a todos, mas são pouco eficazes na crítica para consigo mesmos. Enquanto só teorizavam, nada resolviam, mas quando passam a ocupar um cargo que exige ação prática, terá que testar a teoria; agora é que "a prática se torna o critério da verdade" [5] Por falta de referencial e por excesso de idealismo, é freqüente ocorrerem bobagens e repetições dos antigos adversários, tais como: fazer aumentos abusivos de impostos, aplicar multas injustas, discursos cínicos para justificar um ato imoral de abuso de poder, etc. Há um provérbio oriental que diz: "quem vence dragões, também vira dragão".

Os sujeitos, quando no poder, protegem-se da crítica reforçando pactos de auto-engano com seus colegas de partido. Reforçam a crença de que representam o Bem contra o Mal, recusam escutar o outro que lhe faz crítica e que poderia norteá-lo para corrigir seus erros e ajudar a superar suas contradições. Se entrincheirarem no grupo narcísico, o discurso político tornar-se-á dogmático, duro, tapado, e podemos até prever qual será o seu futuro se tomar o caminho de também eliminar os divergentes internos e fazer mais ações de governo contra o povo, "em nome do povo".

Infelizmente assim é o poder: seduz, corrompe, decepciona e faz ponto cego e surdo nos seus ocupantes temporários.
_______________________________

[
1] Jacques Lacan, psicanalista francês, que propôs o retorno à leitura da obra de S. Freud. Cf.: Seminário 1. Ed. Zahar, 1979, p. 318.
[2] Max Weber define que o “poder é toda chance, seja ela qual for de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contar a relutância dos outros". Para M. Foucault, nas duas obras, Vigiar e Punir e Microfísica do poder, faz uma genealogia do poder. Constata que o poder se exerce na sociedade não apenas através do Estado e das autoridades formalmente constituídas, mas de maneiras as mais diversas, em uma multiplicidade de sentidos, em níveis distintos e variados, muitas vezes sem nos darmos conta disso.
[3] Etienne La Boétie, filósofo francês, autor do Discurso da Servidão Voluntária. Cf.: Brasiliense, 1982.
[4] O rei George III reinou na Inglaterra no séc. 18 Ficou louco devido a uma doença, a porfiria, desconhecida na época.
[5] Dito por L. Feuerbach

E agora, amigo leitor, depois desta leitura já se tem pelo menos uma resposta que você pode apresentar à pergunta que no início fiz: Por que o poder seduz tanto as pessoas?

Seja qual for a sua resposta, certamente se coadunará com a razão pura e simples de que tais pessoas desconsideram a efemeridade do poder, ainda que, como Fidel Castro o tenham retido por dezenas de anos. O poder férreo do tempo que a tudo corrói, enfraquece e elimina neste mundo. Um campeão o é até que outro lhe tome o lugar; uma propriedade pertence a alguém até que lhe seja tomada pelo ancinho da vida ou da morte. Onde estão os faraós do Egito ou os césares de Roma? Onde estão Alexandre Magno, Napoleão Bonaparte, Hitler, Saddam Hussein ou os senhores de escravos?

O ditado atribuído ao Lord Acton é uma verdade contundente: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. Mas de que adianta o poder pelo poder? Quem não se lembra do então Senador Antônio Carlos Magalhães, sagaz político baiano, cujo apelido era Toninho malvadeza nos embates pelo poder e prestígio, quando poderia ter aproveitado a fortuna que amealhou, passeado com os netinhos nas lindas fazendas que possuía? Mas o poder lhe era mais importante e por ele se bateu e debateu-se até os últimos instantes de sua controvertida história.

Não desejo um lugar como a pasárgada de Bandeira (o poeta) onde se é amigo do rei. Antes, desejo a bandeira (princípio) de pasárgada onde vejo em Jesus O amigo! Essa pasárgada de cuja bandeira falo não é um lugar, sinônimo de busca dos prazeres irresponsáveis. É, isso sim, o lugar onde habita justiça, onde o tempo não passa porque é eterno. Essa pasárgada não depende dos favores do poder humano. Ela é o céu... Portanto, não vejo a hora de dizer: “Vou-me embora para outra pasárgada (espiritual) lá, o Rei é meu amigo!”


[1] Manoel Carneiro de Souza Bandeira, poeta pernambucano (1886 -1968).
[2] Pasárgada - cidade da antiga Pérsia (atual Irã) é atualmente um sítio arqueológico na província de Fars, a 87 km a nordeste de Persépolis, uma das capitais da Pérsia antiga que, em função da vastidão do seu império tinha várias capitais. É hoje um Patrimônio Mundial da Unesco.